Sandra Borsoi











{agosto 24, 2011}   PRIMEIRAS PERCEPÇÕES SOBRE O VINHO

Decidi escrever um texto e não publicar um trabalho artistico. Mas sobre o vinho.

Hoje, escrevo pela primeira vez sobre o vinho. Interessante foi que, eu não tinha consciência do quanto um enófilo conhece sobre o assunto, como sempre a ingenuidade é incrivelmente reveladora, com ela deixamos de lado os conceitos e pré conceitos que estabelecemos diante do desconhecido, é como que um desarmar, e isso, tornou tudo mais fácil…
Assim, escrevo sobre como apreendi/entendi o universo do vinho em algumas experiências, conversas e degustações informais….
Inicialmente temos a idéia de que, para apreciar uma taça de vinho se precisa ter grande conhecimento intelectual sobre e sendo assim, torna-se algo distante da realidade de muitos e gera um certo temor. Entendi, que não precisa ser um grande conhecedor de vinhos para apreciá-los, pois, ao bebê-lo, estarás num primeiro momento instigando teus sentidos primários, como o olfato e paladar sem associação e reflexão, mas logo passarás a analizá-lo intuitivamente, buscando compreendê-lo.
Desta maneira, iniciarás um processo de associações, buscando através de suas memórias similaridades ao que já conhece. É claro que neste primeiro momento, as memórias olfativas ficam confusas, pois, não temos o visual para compreender e nominar. Fazemos uma busca apenas através do olfato, e descobri que temos um repertório vasto, mas muito associativo ao visual (conhecemos o cheiro do mel, mas diante de uma colmeia com sua textura e cor fica mais fácil nominá-lo), por isso digo que é primário, da mesma forma o paladar.
Ao passo que te permites adentrar neste universo olfativo e gustativo que o vinho te proporciona, perceberás que seus sentidos começam a se aguçar. Assim como as nuvens correndo no céu, num certo momento deixam o céu limpo e claro, o aroma e sabor se aproximarão intimamente e você, começa a se relacionar com ele e ele, se revelará com potência, verdadeiro, robusto, elegante, suave… Neste momento, torna-se algo sublime, pois, perceberás aromas e sabores sejam eles: de frutas secas/cítricas/adocicadas, de amadeirados, de florais, de temperos, em fim, tudo que permeia nosso universo..
Como não tinha muitas referências nesse mundo do vinho, optei associá-lo ao que mais esta ligado ás minhas experiências, então o associei as artes visuais. Assim, como quem faz a leitura de uma obra de arte, baseada em diversos autores que fazem proposições de leitura de imagens, me propus a fazer a leitura/compreensão do imaginário do vinho, o que não foi fácil fazer a transposição do visual para minha compreensão gustativa e olfativa. Mas logo me reportei as obras de arte contemporânea que vão além das proposições meramente visuais, que fazem mensão a todos os sentidos, seja visual, auditivo, tátil e olfativo…(me aproximando ao meu universo, ficou mais fácil!)
Para poder fazer associações encorpadas, me reportei à questão estética e filosófica- sócio cultural- nas quais possibilitam que se faça análises de obras de arte e que perpassam pelas categorias do “belo” – apartir de Kant (poderia citar muitos outros autores contemporâneos, pós-modernos) o juízo estético é oriundo do sentimento, e funciona no ser humano como intermediário entre a razão e o intelecto. A função da razão é a prática, já a função do intelecto é elaborar teorias sobre os fenômenos. A possibilidade de degustar o vinho trouxe novos ares, um engatinhar ao pensamento reflexivo estético. Assim, os sentimentos de prazer e desprazer em Kant estão ligados as sensações estéticas e pertencem ao sujeito, são estes sentimentos subjetivos, não lógicos que emitem o conceito do belo, são eles que formam o juízo do gosto.
Da mesma forma, os juízos de gosto, ao sentir o aroma e o paladar de um vinho, passa a ser relativo e depende de cada um e do nível de imersão ao degustar. No caso não trata da questão do “belo ou “feio”, mas num estado d´alma ou comprometimento/descomprometimento do leitor/observador/apreciador. Os aromas podem trazer prazerosas sensações ou não, mas certamente mexerão com sua consciência, com sua percepção e um vinho, tomado em momentos diferentes com estados d´alma diversos, poderá trazer para o mesmo significações variadas. E assim, como na leitura de obras de arte, em que poderás lê-las por diversas vezes e ela sempre lhe apresentará novas possibilidades…
Muitas pessoas, sonham em ver a Monalisa pessoalmente e tem uma pré concepção de que ela é extremamente grandiosa, no quesito tamanho, pois é uma obra caríssima e muito famosa, mas ela vai além do seu tamanho e valor numérico. Esta obra é valiosíssima pelo seu contexto, pela sua produção, pela forma como foi pintada e pensada, ela transpõe o espaço científico e passa para o domínio da vida social e cultural de uma época, ela enquanto arte cumpre seu papel, tornando-se significativa trazendo a reflexão e, faz emergir no observador uma visão pessoal, marcadamente subjetiva e crítica decorrente de múltiplas formas de pensar.
Penso que, da mesma forma acontece com os vinhos, tornam-se grandiosos pela forma como foram produzidos, pelo solo que foi cultivado, pelos cultivadores, pelo clima, pelo tipo da uva, pela identidade única de cada safra, pela relação que você estabelece com o seu universo e o universo do vinho. E neste processo, muitos fatores num primeiro momento podem passar desapercebidos. Assim como a obra da Monalisa, quando as pessoas se deparam diante do quadro de “nada por nada”, se decepcionam, porque esperavam algo grande, mas pensam no tamanho da obra não na sua essência. Não a observam com tempo para reflexão e pausa, imergindo aos poucos percebendo o que ela vai revelando…como o vinho!
Ainda compreendi que, o vinho numa taça de cristal, num primeiro olhar pode parecer elegante, sofisticado, mas não perpassa apenas pelas questões estéticas, do que é belo ou não, vai muito além. Tratam de questões inerentes ao tipo de vinho que irás tomar, seja um vinho encorpado, com pouco tanino, de sobremesa, espumantes… As taças permitem que você tenha a liberação das fragrâncias mais intensas, puras e verdadeiras do vinho, porporcionando diferentes experiências de degustação que te conduzirão a outro universo com sutileza e profundidade.
Percebi que, um grande apaixonado busca a essência da bebida dos “Deuses”, com seu néctar vivido, que despertará uma reação muito próxima ao observar uma obra de arte: Tirar do estado de torpor ou de inércia e emergir a necessidade do pensamento, da reflexão…
Diante disso o que penso? Que não devemos nos intimidar diante de uma taça de vinho, precisamos sim, estar com a mente aberta e mergulhar no universo que ele nos revela…
O que o último vinho que tomei me revelou? Isso é assunto pra outro texto e talvez me sinta tão atrevida quando neste para expor o que penso…


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